domingo, 12 de agosto de 2012

Poder

Eis o poder: seus palácios
 hospedam  reis e vassalos,
 messalinas, pajens glabros,
 eunucos, aias, lacaios,
 e até artistas e ratos.
 Uma só migalha basta
 à sordícia que se alastra,
 e pronto surge uma talha
 onde o cenário é lavado
 para o próximo espetáculo.
 O poder é assim: devasta,
 corrompe, avilta, enxovalha,
 do reles pároco ao papa,
 e não há um só que escape
 ao seu melífluo contágio.
 Se alguém o nega ou o afasta,
 compram-no logo, à socapa,
 a peso de ouro ou de prata.
 E se acaso não o fazem,
 mais simples ainda: matam-no.
 Tem o poder muitas faces :
 a que se crispa, indignada,
 a que te olha de soslaio,
 a que purga e chega às lágrimas,
 a que se oculta, enigmática.
 Mas são apenas disfarce,
 formas várias que se esgarçam,
 por entre véus e grinaldas,
 porque assim vertem mais fácil
 o vitríolo em tua taça.
 E tu, rei de Tule, aos lábios
 leva sempre, ávido, o cálice,
 não por amor nem saudade
 de quem se foi, entre as vagas,
 de um castelo à orla do mar,
 mas só porque, embriagado,
 são de engodo as tuas asas
 e de cobiça os teus passos,
 que vão aquém das sandálias
 e se arrastam rumo ao nada.
 O poder é aquele pássaro
 que te aguarda sob os galhos.
 Tudo ele dá, perdulário,
 De ti quer apenas a alma,
 Por inteiro. Ou a retalho.


Ivan Junqueira 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Ave Urânia

"...Ao pisar no solo, toda terra floresceu a seus pés. Ladeavam-na Eros e Hímeros, os gênios do desejo amoroso, que a conduziram à assembléia dos deuses. assim que o mar lhe deu nascimento: o úmido Zéfiro a impeliu, com a suave espuma das ondas, rumo a Chipre.

A mesma majestade com que ela enche toda a natureza fez do mar o local de sua aparição. Seu advento aplaina as ondas e faz a superfície das águas fulgir como uma jóia. Ela é o divino encanto do mar calmo e da feliz travessia, assim como é o encanto da natureza florescente


 Ela é denominada “deusa do mar sereno”, e faz com que os navios cheguem em boa hora ao porto;  foi chamada de Eúploia, “que assegura a navegação propícia”, Akraía, “deusa dos promontórios” (porque lhe dedicavam templos em locais que são bem visíveis do mar), Pontía, “equórea”, isto é, “marítima”, e Nauarkhís, “senhora das naus”.

Ela que é a mais bela de todas as mulheres.. É ela a Divina Afrodite!"


(trechos do sexto hino órfico à Afrodite)